Psicologia e Compromisso Social: Por que a prática clínica sem análise crítica é considerada “coaching”?
- Victor Hugo Diniz
- 4 de fev.
- 3 min de leitura
Uma visão sistêmica sobre a ética e as marcas sociais no consultório

Você já viu essa imagem circulando nas redes sociais? Existe um lema político e profissional, muito difundido na psicologia crítica latino-americana, que se tornou ainda mais popular com a viralização desta e de outras intervenções urbanas. Elas dizem, em tradução livre: "Psicologia sem luta social é coaching". Essa frase sempre me desperta reflexões profundas sobre psicologia e compromisso social, e sobre a minha pratica profissional, e convido você a acompanhar esse raciocínio.
Não é necessário um mergulho exaustivo nos livros para perceber as marcas que construíram a sociedade latino-americana. Não é preciso ser um acadêmico da história ou da sociologia para entender que nossa cultura e nossas práticas são pautadas, muitas vezes, em lógicas de opressão e violência. Disso derivam as grandes desigualdades econômicas e sociais que impactam diretamente as subjetividades. Fica claro, portanto, que não existe ciência psicológica ou fazer profissional que ignore essas marcas e as reproduções sociais que nos atravessam diariamente.
No espaço da clínica, por exemplo, não podemos acolher o sofrimento advindo de marcadores de gênero sem considerar a cultura machista na qual nossa história foi consolidada. Não podemos atuar sem considerar as opressões sofridas por pessoas negras ou pela comunidade LGBTQIAPN+. Quando analisamos a interseccionalidade entre raça, gênero e classe, a conclusão é única: não existe clínica sem luta social. Não há como promover saúde mental sem olhar para os fatores que produzem o sofrimento, seja de forma direta ou indireta.
Receber uma pessoa negra na clínica exige considerar os impactos do racismo em sua autoestima. Como dizia Neuza Santos Souza, a autonomia exige um discurso sobre si mesmo fundamentado no conhecimento concreto da realidade. Se a psicologia clínica ignora esses fatores, ela falha em sua missão de promover saúde.
O Indivíduo não é uma ilha
Muitas vezes, a psicologia tradicional tentou isolar o indivíduo em uma redoma, como se seus medos, ansiedades e traumas fossem frutos exclusivos de um funcionamento interno, puramente biológico ou familiar. Contudo, ao longo da minha formação e das minhas vivências, percebi que é impossível ser um profissional ético sem o comprometimento com as lutas sociais e sem o olhar atento às relações de raça, gênero e classe. Entendi cedo que ninguém adoece no vácuo.
Tenho escolhido a Abordagem Sistêmica justamente porque ela me permite enxergar a pessoa não como uma peça isolada, mas como parte de uma teia complexa. Na perspectiva sistêmica, entendemos que o sofrimento é produzido e mantido pelas relações — e estas não acontecem apenas dentro de casa, mas na estrutura da sociedade:
O Sistema Social: Não podemos tratar o Burnout, por exemplo, sem discutir a precarização do trabalho.
O Sistema Racial: Como falar de autoestima com uma pessoa negra sem considerar o racismo estrutural que tenta ditar o seu lugar no mundo desde a infância? O preconceito é um "ruído" constante que adoece o sistema psíquico.
O Sistema de Gênero: As expectativas e violências de gênero moldam a forma como nos comunicamos e como nos sentimos (ou não) seguros nos espaços.
Ética não é sinônimo de neutralidade omissa
Frequentemente ouvimos que o psicólogo deve ser "neutro". Mas, se olharmos com atenção para o nosso Código de Ética, veremos que a neutralidade não pode ser sinônimo de omissão diante das injustiças. O primeiro princípio fundamental do nosso código é claro: o psicólogo baseará seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Para mim, exercer a psicologia clínica sob essa luz significa entender que:
A saúde mental é atravessada pela realidade social: Não existe bem-estar pleno em ambientes de opressão. Ignorar o racismo, o machismo e a LGBTfobia no consultório seria ferir o compromisso de promover a dignidade humana.
A Psicologia é ferramenta de transformação: Nosso dever vai além de "ajustar" o indivíduo à sociedade; trata-se de fortalecer a autonomia para que cada pessoa possa existir plenamente.
Responsabilidade Social: O Código de Ética nos convoca a analisar criticamente a realidade política e social. Por isso, no meu consultório, seu contexto de vida, sua cor e seu gênero não ficam do lado de fora da porta. Eles são a base do nosso trabalho.
Ser psicólogo é um ato de responsabilidade com o outro. É garantir que o consultório seja um território onde a ética se traduz em acolhimento real e onde o compromisso social se transforma em cuidado técnico de excelência. Como preconiza nosso código, trabalhamos pela eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração e violência. É nisso que acredito e é assim que pauto minha prática diariamente.



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