Novembro Negro: O Impacto do Racismo na Identidade e Autoestima da População Negra
- Victor Hugo Diniz
- 20 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de nov. de 2024

Você já parou para pensar em como o racismo e as relações raciais podem impactar a formação da nossa identidade? Chegamos ao Novembro Negro, e temos visto várias ações e debates a respeito do tema. No campo da psicologia, é importante entender o contexto histórico, social e cultural, e como ele afeta a vida da população, tanto de forma coletiva quanto individual.
Pela primeira vez no Brasil, temos o dia 20 de Novembro, o Dia da Consciência Negra, como feriado nacional. Isso tem gerado vários debates na internet e nos meios de comunicação em geral. Ainda hoje, existem pessoas que negam a existência do racismo no Brasil. No entanto, se olharmos para a história recente do país, podemos identificar, com facilidade, como a estrutura racial foi construída e como ela permanece. Desde a época da escravidão, as pessoas negras foram colocadas em espaços de subserviência. Após esse triste capítulo, as pessoas negras, apesar de “livres”, enfrentaram desafios para conseguir se desenvolver, devido à escassez de recursos. Esse cenário se mantém até os dias atuais, mas com novas fórmulas. O racismo se remodela diariamente, e podemos observar isso quando, apesar dos vários esforços e políticas públicas, a população negra, majoritariamente, ainda se localiza em regiões menos desenvolvidas, encontra empecilhos para o acesso e permanência nas instituições de ensino, recebe remunerações mais baixas e tem menos oportunidades de crescimento profissional.
Diante desse cenário tão excludente e desafiador, as pessoas negras tendem a internalizar que existe um “lugar do negro” e um “lugar do branco”, onde, para ascender socialmente e se “fazer valer” dentro dessa realidade, é necessário se esforçar ao máximo para se destacar e “migrar” do lugar do negro para o lugar do branco. É nesse processo que a identidade e a autoestima da população negra são impactadas de forma negativa. Cria-se um imaginário de que “ser negro” é algo ruim e que é necessário se moldar para se aproximar da branquitude. Buscam-se todas as formas de ser aceito: muda-se o jeito de falar, a forma de se comportar, o que vestir, e, para agradar, acabam-se submetendo a situações adversas.
Neuza Santos Souza, durante seu estudo que deu origem ao livro Tornar-se Negro, observou, através do relato dos participantes, como as vivências das relações raciais provocam uma negação da própria identidade, com o objetivo de alcançar algo que é vendido como ideal e positivo. Em um país onde o poder, a cultura e a economia são construídos a partir de uma visão marcada pelo processo de colonização — uma visão de pessoas brancas para pessoas brancas —, não corresponder a essa expectativa significa estar à margem do que se entende por ser bem-sucedido. Os conceitos de feio e bonito, de bom e ruim, perpassam pelo ideal do branco. Quem nunca ouviu dizer que o belo é o loiro de olhos azuis? Esse discurso provoca o desejo de buscar algo inalcançável para uma população com influências de povos diversos. Toda a influência de países de origens africanas ou mesmo as referências dos povos originários são, nessa lógica, consideradas inferiores e, portanto, descartáveis. Essa realidade provoca, principalmente nas pessoas negras, uma ideia negativa sobre si mesmas, sobre sua ancestralidade e sobre seus traços de negritude.
Nesse sentido, já conseguimos notar os impactos na autoestima e nas nossas relações, e se faz necessário reconstruir essa identidade de uma forma que não ignore o impacto do racismo na sociedade, na autoestima e na formação da identidade. Esse é um desafio que requer cuidado, no campo coletivo, com a promoção dos valores culturais e sociais da negritude, dos povos originários e da sabedoria africana, valorizando as origens diversas e trazendo à tona a consciência de que a beleza é plural e diversa. No campo individual, é um processo de se reconhecer e se identificar para além das relações pautadas pela branquitude. Muitas vezes, se faz necessário o acompanhamento de profissionais de saúde mental comprometidos com a luta antirracista, por meio de uma psicologia afirmativa.
A construção da identidade negra no Brasil requer um discurso baseado na realidade da diversidade e não na lógica colonial. É um processo individual, mas também coletivo — uma jornada de afirmação e resistência. Quando compreendemos a dinâmica das relações raciais e seus efeitos sobre a população, podemos transformar as realidades e construir um futuro com equidade e inclusão.



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