top of page

"Entre o Mundo e Eu” no Brasil: como a psicologia nos ajuda a preparar nossos filhos para a realidade da violência racial





Você já sentiu a necessidade de preparar seus filhos para a realidade da violência racial? Ou já imaginou como seria a sua vida se, quando criança ou adolescente, alguém tivesse te preparado para esse contexto?


Sem dar grandes spoilers, quero falar de uma obra poderosa de Ta-Nehisi Coates: o livro Entre o Mundo e Eu, originalmente escrito como uma longa carta ao seu filho Samori, então com 15 anos. Nele, Coates tenta confortar o garoto após mais um caso de impunidade policial contra um jovem negro nos Estados Unidos, mas, acima de tudo, sente a urgência de prepará-lo para o mundo que o espera: um país construído sobre a destruição dos corpos negros. É uma carta dolorosa, honesta e cheia de amor.


E aqui no Brasil? Será que esse livro também ecoa nos jovens negros brasileiros?


Nossa história, marcada por mais de três séculos de escravização, deixou marcas profundas. Mesmo com diferenças importantes em relação ao contexto norte-americano, compartilhamos traços dolorosamente semelhantes: a violência policial seletiva, o racismo estrutural que ora se disfarça, ora se escancara, e a sensação constante de que o corpo negro está sob ameaça.


Muitos relatos de Coates provocam imediata identificação. Isso nos leva a uma reflexão inevitável: é fundamental preparar crianças e adolescentes negros para os desafios que vão enfrentar — herança direta da escravidão, da colonização e de um racismo que nega nossa existência plena e ameaça nossa segurança e integridade física e emocional.


Do ponto de vista da psicologia, o racismo não é apenas um problema “lá fora”. Ele opera também internamente, afetando subjetividade, autoestima e saúde mental. Notícias de violência contra pessoas negras — físicas, simbólicas ou institucionais — aparecem diariamente. A obra Psicologia Social do Racismo e diversos estudos acadêmicos mostram como esses acontecimentos reforçam a criminalização da negritude.


Uma referência fundamental nesse campo é Neusa Santos Souza, que, em sua pesquisa clássica, analisa o impacto do racismo na formação psicológica negra: como ele pode minar o reconhecimento do próprio valor e, em alguns casos, levar à reprodução de comportamentos racistas contra si mesmo e contra outros negros.


"Uma das formas de exercer autonomia é possuir um discurso sobre si mesmo. " Neusa Santos Souza

Diante disso tudo, surge a pergunta que não quer calar: como preparar nossos filhos para a realidade brasileira e para essas manifestações racistas que se reinventam a cada dia?


A resposta parece simples, mas exige um processo longo, delicado e contínuo: promover o autoconhecimento ancorado no contexto histórico e social em que estamos inseridos. Isso significa ajudar crianças e jovens negros a validarem seu valor próprio, ressignificarem as experiências racistas, construírem um discurso sobre si mesmos baseado na realidade e recolocarem no centro a trajetória que tentaram apagar.


É uma jornada de reconhecer as potencialidades que nossa ancestralidade nos legou — muito além do racismo e da escravidão. É preciso destacar as riquezas culturais, intelectuais, espirituais e afetivas das diversas Áfricas que formaram o povo negro no Brasil, para além do referencial da branquitude.


Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, quando lembramos Zumbi, Dandara e tantos outros que lutaram para que liberdade e dignidade fossem reais para pessoas negras, este texto é um convite à reflexão: o autoconhecimento não é luxo, é ferramenta de sobrevivência e de construção de futuro.


Referências:

COATES, Ta-Nehisi. Entre o mundo e eu. Tradução de Paulo Geiger. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.


SANTOS SOUZA, Neusa. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.


BENTO, Maria Aparecida Silva. Branqueamento e branquitude no Brasil. In: CARONE, I.; BENTO, M. A. S. (Org.). Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2002.

Comentários


© Victor Diniz 2024

bottom of page