Para além do Janeiro Branco:
- Victor Hugo Diniz
- 21 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Uma reflexão aprofundada sobre a Campanha de Conscientização da Saúde Mental

O Janeiro Branco é uma campanha essencial e tem o objetivo de promover uma conscientização acerca da saúde mental. Muitas vezes a sociedade negligencia os cuidados com a saúde emocional e o movimento traz importantes ações e reflexões sobre o bem-estar psicológico, mas precisamos olhar para além da campanha e refletir outras questões que estão implicadas na saúde mental e não deveriam ficar de fora.
Embora a intenção seja positiva, é fundamental ter uma visão crítica de como algumas organizações e profissionais conduzem esse tema. Essa visão crítica nos permite ampliar os benefícios da campanha e considerando a natureza do meu trabalho, a minha formação eu convido vocês a refletirem comigo alguns pontos:
1. A Saúde Mental o ano todo
A ideia de ter um mês para se dedicar a conscientização de um tema é muito importante, mas isso não pode ser uma ação isolada. Da mesma forma que não podemos limitar nossas ações, estratégias e campanhas para o combate do suícidio no mês de setembro; as ações de combate ao câncer de mama no outubro rosa, não podemos nos limitar às ações de promoção à saúde mental só em janeiro. Podemos usar o mês para lançar as ações, porém elas devem ser permanentes e que possam alcançar o maior público possível. A saúde mental não é uma questão que ocorre apenas em janeiro ou em momentos específicos, mas sim uma questão permanente, que exige atenção constante. Concentrar a divulgação e reflexão sobre o tema apenas durante um mês pode dar a impressão de que o cuidado com a mente é algo sazonal, quando, na realidade, deveria ser parte integrante da nossa rotina durante todo o ano.
2. Saúde Mental não tem preço
Outro ponto que cabe reflexão é em relação a empresas e profissionais que usam a campanha exclusivamente para fins comerciais. Desconfie desse tipo de empresas, clínicas e consultórios. Usar uma campanha tão importante apenas com o objetivo de autopromoção não é interessante, uma vez que é uma campanha que merece ser ampliada e atender aos diversos públicos e regiões. A campanha não pode ser limitada apenas a promover seus serviços visando lucro. Uma abordagem superficial e voltada para o lucro, em vez de se aprofundar em questões realmente relevantes sobre o tema, esvazia a importância das ações que se intensificam em janeiro. A saúde mental, especialmente no contexto de uma campanha de conscientização, precisa ser tratada com seriedade, sem transformar um movimento social em uma ferramenta de marketing.
3. Saúde mental para todos os públicos
Embora o Janeiro Branco trate da saúde mental de maneira geral, é perceptível que muitas vezes, as especificidades não são tão observadas. É importante que ampliemos o debate e as ações considerando as questões que atravessam os diversos públicos. É imprescindível olhar a saúde mental em sua integralidade e suas especificidades, lançando informações e promovendo serviços de qualidade que atendam as necessidades de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, pessoas negras e LGBTQIA +, por exemplo. A saúde mental dessas populações, muitas vezes, sofre com barreiras econômicas e sociais que precisam ser abordadas de maneira específica. Precisamos ser inclusivos ao tratar das dificuldades enfrentadas por esses grupos e propor soluções concretas para melhorar o acesso a cuidados psicológicos.
4. Saúde mental e Políticas Públicas
Nos últimos anos, em especial no governo de Bolsonaro, as políticas públicas e as instituições públicas que promovem a saúde mental tem sofrido um desgaste, além de enfrentar desafios para ampliar sua atuação. A campanha do Janeiro Branco também pode ser um momento para reivindicar a ampliação de serviços e recursos para a promoção da saúde mental pública e de qualidade. Desde as Unidades Básicas de Saúde (UBS) até os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). É preciso fortalecer esses espaços para oportunizar a acessibilidade ao tratamento especializado e políticas públicas eficazes que garantam cuidados para todos, independentemente de sua classe social ou condição econômica. Para além de conscientizar, é necessário ter estruturas adequadas para acolher as pessoas que buscam e precisam de ajuda.
Essas reflexões são um princípio para importantes reflexões que são pertinentes a campanha Janeiro, e está longe de diminuir a importância da campanha. O que gostaríamos de destacar é que precisamos ampliar o debate para que a conscientização sobre a saúde mental se torne cada vez mais inclusiva, eficaz e contínua. Se a proposta é realmente transformar a maneira como a sociedade trata a saúde mental, é essencial que a campanha evolua, abordando de forma mais ampla as necessidades da população e, principalmente, garantindo acesso a cuidados e tratamentos adequados. E é importante lembrar que quem faz a campanha somos nós, todos aqueles que se colocam à disposição para promover a saúde mental.
Por fim, é importante lembrar que a saúde mental é um direito de todos e precisa ser cuidada ao longo de todo o ano. Que o Janeiro Branco sirva como um ponto de partida para uma reflexão que se amplie cada vez mais.

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